18/11
15h
Debates | Diálogos

Migrações | Refúgio e a circulação de saberes tradicionais

Com Mohammed ElHajji e Catalina Revollo Pardo (DIASPOTICS). Mediação de Felipe Carrelli

"Um refugiado pode ser qualquer um. Pode ser eu ou você” (Ai Weiwei) ou somos descendentes deles, em algum elo de nossa árvore genealógica.

Segundo o último relatório da ACNUR, 1% da população mundial foi deslocada à força em 2020. A questão migratória não pode ser apreendida como uma crise, já que migração é uma fenômeno inerente à humanidade em toda sua história, ela acontece por múltiplos motivos, voluntário ou forçados, para melhorar as condições de vida ou se proteger das crises que acontecem em seus territórios, com motivos diversos: perseguição política, guerras, fome, crises socioeconômicas e ambientais. 

No entanto, não pode ser mais compreendida somente em termos de ausências e rupturas, pois as possibilidades dos encontros interculturais aportam na construção diversos processos socioculturais, políticos e econômicos nos contextos locais, os quais precisam ser cuidados e preservados com a lente dos Direitos Humanos. Dentre as consequências mais evidentes da globalização, destaca-se o princípio de encolhimento simbólico do globo, decorrente da generalização e acessibilidade dos meios de comunicação e transporte. 

Nessa mesa, Prof. Dr. Mohammed ElHajji e Profa. Dra. Catalina Revollo Pardo atualizam o debate em torno do fenômeno migratório e diaspórico a partir dos fluxos e rastros subjetivos produzidos pelo imigrante e as comunidades diaspóricas, mediados pelas TICs (Tecnologias da informação e comunicação) e pela circulação de saberes tradicionais. Vamos olhar para a questão do refúgio desde a perspectiva dos estudos decoloniais.

18 de novembro, 15h

Assista a mesa de abertura!

Fechando a programação de mesas da Ocupação Refúgio, o evento contou com as participações de Mohammed ElHajji e de Catalina Revollo Pardo, além da mediação de Felipe Carrelli. Os convidados falaram sobre as suas linhas de estudos, que envolvem as migrações, a circulação de saberes tradicionais com essas mobilidades, e a perspectiva decolonial sobre o assunto.

“(...) o estudo do fenômeno migratório diz mais sobre nós do que sobre o imigrante. A gente entende o funcionamento das relações” - Mohammed ElHajji.

Para tratar da migração e do refúgio, Mohammed ElHajji trouxe o tema da mobilidade humana, questão sempre presente na história da humanidade, proporcionando situações de comunicação intercultural. Esse encontro entre culturas atravessa pessoas de diferentes horizontes, de diferentes ambientes sociais. A diversidade nunca para, são encontros de ideias, de subjetividades, de crenças, de visões de mundo, de afetos.

No Marrocos, há uma entidade das águas chamada Aisha Qandisha. ElHajji acompanhou na rádio a história de uma criança francesa que falou para a mãe: a Aisha Qandisha está aí. A mulher, que não tem qualquer ligação com o Marrocos, ficou surpresa e curiosa sem saber sobre o que a filha estava se referindo. Pesquisou e entendeu que a menina por ter tido uma relação intercultural com outras crianças na França, internalizou essa representação, imaginário e discurso sobre a entidade.

“Quando uma pessoa migra, um grupo e todo o seu imaginário migra junto. Se a gente brinca com aquela proposta do escritor Jorge Luis Borges sobre os seres que não existem, posso dizer para vocês que até os seres que não existem migram junto com a gente”  

Portanto, há sempre uma reunião de imaginários que é fruto dos encontros decorrentes da mobilidade humana.

Em seguida, ElHajji organizou a fala em cinco pontos:

  • A importância da circulação humana no período paleolítico. Afirmou que o que fez o humano tornar-se humano não pode ser dissociado das suas migrações. Esse fluxo teve grande influência, inclusive, nas nossas capacidades cognitivas de abstração, de decodificar situações novas. Isso tudo se cria no encontro do sujeito com o desconhecido nessa marcha contínua. Outra questão aqui é a da hospitalidade, do encontro com o outro, com os diferentes saberes, crenças e imaginários que acabam complementando ambos os grupos. 
  • O segundo ponto foi sobre a Era Medieval, momento de formação da sociedade moderna com a constituição de muitas das configurações que se têm hoje. Tal sociedade é resultado de fluxos humanos materiais e simbólicos. Não há civilização que se construa isoladamente, todas são consequência dos encontros, sejam pacíficos ou não. 

Nesse momento, ElHajji comentou também sobre as questões diaspóricas, sobre como a cultura acompanha esse movimento. Por exemplo, a mandioca, que hoje é um traço identitário da alimentação de certa região da África Central, foi levada para lá das Américas com as populações que voltavam para o outro lado do oceano.

  • O terceiro ponto foi sobre as migrações intrarregionais, em que a circulação de saberes tradicionais é bastante forte. Ao falar desse tópico, destacou a questão da população mexicana nos EUA: “Não somos nós que atravessamos a fronteira, foi a fronteira que atravessou a gente. Isso é falado por eles, mas é válido para o mundo inteiro”.Contou também da troca de conhecimentos intrarregionais e da continuidade étnica, linguística e religiosa de certos grupos. Por exemplo, nas fronteiras do Brasil com a Colômbia e a Venezuela, há muitas populações indígenas para as quais falar de Brasil, Colômbia ou Venezuela não faz sentido. São grupos que sempre viveram ali e hoje, ironicamente, precisam de passaporte para passar de um lado para o outro da fronteira. 
  • No quarto ponto tratou das migrações transnacionais. Contou que o que se pode observar com essas migrações é que são um vetor da diáspora e que a cultura e as tradições vão juntas - como falou em outro tópico. Um exemplo é a presença da culinária etiope no Canadá após a diáspora etiope. Afirmou que todo grupo que se estabelece em algum lugar, recebe a cultura dominante, mas também difunde a sua. O exemplo mais forte e presente disso talvez esteja na música, como o jazz. 

Falou que toda tradição é uma tradução fora do seu local de origem, é uma atualização ao seu novo contexto.  

  • Os saberes tradicionais e as novas tecnologias são hoje outro vetor das migrações e dos fluxos humanos e simbólicos. Esse ponto se refere diretamente ao contemporâneo. Hoje, teóricos pensam que: o sujeito continua em contato com a cultura de origem, tudo que lhe formou, mas ao mesmo tempo adota novas formas de sociabilidade. Quando um grupo é desterritorializado, ele ressignifica tudo aquilo que lhe falta usando o lhe é dado no seu novo contexto. Quando a população japonesa, por exemplo, chegou no norte do Brasil, não tinha os ingredientes necessários para a sua culinária e adotaram ingredientes locais. Desse modo, há uma cozinha nipônica feita com comidas encontradas no Norte do país. São novas formas de saberes tradicionais. 

Esse fenômeno constitui, no fundo, uma outra forma de globalização, não das multinacionais, mas das trocas entre os povos deslocados, migrantes que vão e voltam, que se encontram, que se cruzam e que acabam constituindo uma globalização propriamente popular. 

ElHajji se questionou: não há atrito? Conflito? Desigualdade? E deixou essa parte para a Catalina.

A apresentação de Catalina Revollo Pardo, no primeiro momento, foi um aprofundamento nas questões teóricas sobre a decolonialidade, a descolonialidade, a colonialidade, a colonização, a diferença entre esses termos e a relação deles com a questão migratória. Afirmou que a ideia do “outro” é uma criação europeia que parte da colonização, da relação de poder que se mantém na atualidade de diversas maneiras.

Trouxe as ideias do teórico peruano Aníbal Quijano para desenvolver a percepção de que a colonização acabou, mas a colonialidade continua. O que isso quer dizer? Catalina explicou tudo pensando na instauração nas Américas de um modelo de produção baseado no capital, na dominação e na ideia europeia de uma raça superior às demais.

Ela destacou o que perdura fortemente ainda hoje. A partir das ideias de Quijano, afirmou que aquela noção de raça foi usada para construir a dominação europeia e é a mais profunda e duradoura expressão desse poder em todo o mundo atualmente. 

Em seguida, contou sobre como isso tudo está relacionado às diferenças do acolhimento de imigrantes europeus e estadunidenses e de outras nacionalidades. A xenofobia, no caso, está vinculada justamente ao racismo estrutural. Narrou a sua experiência enquanto imigrante no Brasil, a sua militância e a sua vivência em Bogotá, uma das cidades que mais recebe refugiados da Venezuela. Enfatizou a importância de se refletir criticamente sobre isso com as lentes da ideia de raça, de classe e de gênero. Falou da diferença, por exemplo, da vivência de uma mulher negra ou indígena em situação de refúgio e de um homem branco estrangeiro acolhido por uma multinacional.

Para ela, é fundamental voltar o olhar para o contexto latino americano diante de tanto conteúdo propagado sobre a imigração para a Europa. Enfatizou que o Brasil não é o principal país acolhedor na América Latina, está atrás de alguns como o Peru, a Colômbia e o Chile.

Trouxe também a ideia de uma globalização contra-hegemônica, que conta com uma circulação muito potente de saberes tradicionais, através dos quais estão acontecendo reivindicações políticas.

Quanto à mídia, Catalina não concorda com a nomeação desses fluxos de deslocamento de “crises migratórias”. Contou que as crises acontecem nos territórios, já essa marcha é inerente à humanidade ao longo da construção histórica.

Por fim, chegou o momento das perguntas. Em meio às respostas, Catalina ressaltou a diferença de recepção das pessoas de diferentes lugares, classes sociais, gêneros e raças. ElHajji alertou para o dado de que hoje no Brasil tem mais gente saindo do que entrando e que isso é um problema sério. Hoje, o país é visto como lugar de convulsão social. Não consegue manter aqui os imigrantes, também não consegue atrair jovens, trabalhadores, pessoas que se identificam e capital interessado em investir. Terminou dizendo que a situação é mais dramática do que se imagina.