25/09
14h
Residência

Etnoastronomia e a questão da divulgação científica com refugiados

Com Eduardo Monfardini Penteado e Andrea Rodriguez Antón. Mediação de Felipe Carrelli

Como os povos do deserto usam as estrelas para se orientar? Que outros saberes eles têm a nos ensinar? Quais são as questões que permeiam a divulgação científica para os grupos de pessoas em situação de refúgio?

“Haviam bibliotecas, mas eram todas ambulantes. As condições do deserto não permitem instalar-se e fazer instalações. Apesar da nossa condição nômade, o homem levantava uma bandeira, um desafio: de que nos reconheçam como sociedade independente, além disso, que se reconheça explicitamente que nesse Saara existe ciência e existem cientistas e que existem sábios”

Nesta mesa, os convidados debatem sobre o papel da divulgação científica na questão migratória e também detalham o processo de etnoastronomia durante as atividades do Projeto Amanar - realizado em 2019 com refugiados saarauis nas Ilhas Canárias e nos cinco campos perto de Tindouf, na Argélia. Tal processo consistiu em entrevistas com sábios e sábias de estrelas saaraui, que contaram lendas e explicaram como os antigos nômades utilizavam as estrelas para se guiar, para rezar e para saber em que época do ano estavam.

Esse evento faz parte de uma série de encontros sobre os conteúdos abordados pela instalação Irifi: Estrelas do Deserto.

Assista a mesa!

Dando continuidade ao dia especial de mesas sobre etnoastronomia, a segunda conversa contou com dois participantes do Projeto Amanar: Eduardo Monfardini Penteado e Andrea Rodriguez Antón. Eles falaram sobre a divulgação da astronomia atrelada à questão migratória e detalharam o processo de aprendizado intercultural sobre o céu com o povo saaraui. A mediação e tradução simultânea foi de Felipe Carrelli

Eduardo Penteado contou sobre o período em que fez doutorado na Holanda e destacou que a sua experiência como imigrante não corresponde a da maior parte das pessoas que passam por momentos e processos migratórios. Relembrou, por exemplo, a famosa foto de Aylan, pequeno menino sírio que apareceu morto em uma praia da Turquia depois de tentar a travessia pelo Mediterrâneo com a sua família. Essa imagem ficou bastante marcada para ele, porque foi justamente no momento em que estava também na Europa. E se questionou porque ele teve uma oportunidade boa enquanto tantas outras pessoas precisam se lançar ao mar, de forma precária, em busca de melhores condições de vida.

São problemas muito graves e complexos, que não começaram hoje, mas que não podem ser normalizados. Na época, se perguntou o que ele, com a sua experiência em astronomia, poderia fazer para auxiliar minimamente pessoas em situação de refúgio e imigração forçada. E descobriu formas de diálogo entre a sua área e as situações que esses imigrantes se encontravam. Formas que ele apresentou ao longo dessa mesa. 

Penteado mostrou alguns dados sobre a imigração forçada e mostrou duas fotos tiradas no espaço. A Terra aparece sem fronteiras, marcações, barreiras, ou é tão pequena que quase não dá para ver. A partir disso, ele teceu uma série de questionamentos:

“Qual é o sentido de alguém ter que pedir permissão para cruzar uma linha imaginária? A gente pertence a um país ou a um planeta? A gente pertence a que lugar ou será que é o inverso, o lugar que pertence a gente? Será que o país e o planeta nos pertencem? Mas será que isso é possível? Pode um planeta pertencer a alguém, a algum grupo? E nós, como espécie dominante no planeta, temos o direito de dominar, de possuí-lo e fazer o que bem entende? O que pode acontecer se a gente continuar desmatando, queimando, poluindo, sujando, degradando, matando? Qual é o futuro disso? Há futuro nisso tudo? E se a gente chegar ao ponto do planeta ser completamente inabitável, tem como migrar para outro planeta? A resposta é não. Não tem como sermos migrantes planetários, não haveria uma migração como espécie”.

O astronauta que tirou uma das fotos disse que foram até lá para explorar a Lua e a coisa mais importante foi que descobriram a Terra. Como se, distante do local de origem, pudesse ver a própria casa com outras perspectivas. 

Com esses questionamentos, imagens e pensamentos acessíveis, Penteado mostrou que a astronomia levanta pontos que podem ser compartilhados com o grande público e a comunidade escolar. Especificamente em se tratando das escolas, relacionou o ensino da astronomia ao acolhimento de crianças e jovens estrangeiros, contando que a escola é um ambiente fantástico para se trabalhar o sentimento de cidadania global e de vontade de defesa do planeta. 

Trouxe também dados sobre crianças imigrantes nas escolas brasileiras, enfatizando que há pouco apoio da esfera pública com relação a isso, mesmo com leis que garantam o direito do estudante estrangeiro de acesso à educação. 

Terminou a sua fala contando que o GalileoMobile vem intensificando suas ações com escolas para se ter uma maior continuidade dos projetos. E que a proposta da sua fala era justamente de trazer mais perguntas do que respostas, para pensar o que é possível fazer em prol desses grupos, para que não aconteça mais situações como a vivida pelo pequeno Aylan. 

Em seguida, Andrea Antón fez uma apresentação sobre o Projeto Amanar e a etnoastronomia. Começou destacando que, no projeto, ensinar e aprender tem o mesmo grau de importância, para que se possa ter realmente uma educação intercultural. Eles têm a percepção de que a ciência ocidental não se aplica a todas as partes do planeta. Para fazer um diálogo intercultural com os saaruis, é preciso, portanto, estar aberto às suas visões de mundo, aos seus pensamentos sobre o céu. Durante a sua estadia nos acampamentos junto com o projeto, aprendeu muito sobre suas histórias, tradições e comidas - especialmente sobre o chá, um elemento muito importante para eles. 

Ela faz esse trabalho de astronomia cultural interessada em saber o que falam sobre o céu, como o utilizam de forma prática ao longo do ano e como as histórias se relacionam com as suas práticas sociais. Queria entender sobre o seu calendário, suas crenças, como pensam o clima do deserto. Eles utilizam as estrelas, por exemplo, para definir as estações do ano - dividindo-as de forma diferente da ocidental. Não se baseiam no sol, mas na visibilidade de algumas estrelas para determinar o tempo de seca e de chuva. Quase todos conhecem essas configurações, principalmente no que diz respeito ao início do verão. 

Uma das pessoas entrevistadas contou que quanto aos objetos celestes, tudo tem um significado, podendo ter uma função decorativa, de guia e de medição do tempo. Andrea contou a história de uma das constelações, com personagem do Alcorão. Tem muita coisa que ela ainda não entendeu, que estão no processo de tentar descobrir os significados, como a mitologia, por exemplo.

Além disso, mostrou imagens e contou relatos de entrevistas com os sábios de estrelas. Um deles, é descendente de um sábio e poeta que já no século XIX, previu que as riquezas do Saara ocidental levariam os saarauis às desgraças. Algumas dessas pessoas entrevistadas seguem dando informações. O projeto contratou jovens para que pudesse haver uma continuidade da documentação dessas histórias, fazendo entrevistas e falando eles mesmos das suas tradições. 

“A gente segue aprendendo e todas as formas de ver o céu são válidas”.

Por fim, tanto Penteado quanto Andrea responderam a perguntas do mediador e do público quanto aos processos de treinamento do GalileoMobile, a divulgação científica, detalhes sobre as conversas com uma sábia saaraui, desafios do Brasil no atendimento aos refugiados e se existe alguma resistência dentro da área da astronomia e da física de abordar as questões da astronomia cultural.