25/09
10h
Residência

Astronomia pelo mundo: GalileoMobile e o Projeto Amanar

Sandra Benitez Herrera, Jorge Rivero González, Diego Torres Machado. Mediação de Felipe Carrelli e Patrícia Figueiró Spinelli

A importância da divulgação científica na atualidade é o assunto que permeia esta mesa. Os convidados vão contar especificamente sobre a experiência do grupo de voluntários do projeto GalileoMobile. Desde 2009, eles popularizam a astronomia em cantos remotos do mundo que têm pouco acesso a esse tipo de iniciativa. Também será apresentado o Projeto Amanar, realizado em 2019 com refugiados saarauis nas Ilhas Canárias e nos cinco campos perto de Tindouf, na Argélia.

Esse evento faz parte de uma série de encontros sobre os conteúdos abordados pela instalação Irifi: Estrelas do Deserto.


A importância da divulgação científica, a astronomia ao redor do mundo e a preservação de diferentes saberes foram alguns dos assuntos que permearam essa mesa sobre o GalileoMobile e o Projeto Amanar. Abrindo o dia de debates relacionados à instalação “Irifi: Estrelas do Deserto”, a conversa contou com as participações de Diego Torres Machado, Jorge Rivero González e Sandra Benitez Herrera. A mediação foi de Felipe Carrelli e Patrícia Figueiró Spinelli. 

Dê play no vídeo e confira a conversa completa.  

A apresentação de Diego Torres Machado foi toda entremeada pelo questionamento: por que é importante fazer divulgação científica e, mais especificamente, da astronomia? Ele afirmou que o primeiro passo para desenvolver essa resposta seria definir dois pontos, o que é ciência e como funciona o método científico. E foi o que ele fez. Explicou-os a partir da sua área, a física, e do experimento em que trabalha, o LHC - que tem como um dos objetivos tentar recriar as condições do universo recém nascido.

Em seguida, levantou alguns tópicos para sustentar a importância da divulgação da ciência. Um deles é o fato de, na maioria dos países, o financiamento de pesquisas advirem de fundos públicos. E, por isso, é como se os pesquisadores devessem uma satisfação à população. Reforçou que a verba destinada à pesquisa nunca deve ser encarada como um desperdício. Outro ponto desenvolvido rapidamente por ele foi a influência de novas tecnologias sobre o futuro da sociedade.

“A ciência está em todos os lugares e é muito importante que tenhamos um mínimo de conhecimento sobre aquilo que vai ser cada vez mais determinante e presente nas nossas vidas”.

Por fim, respondeu porque considera que a astronomia é um instrumento poderoso para despertar um interesse e envolver a juventude na área científica. 

O convidado seguinte da mesa, Jorge Rivero González, apresentou um contexto sobre o GalileoMobile, destacando os propósitos, a história e algumas ações feitas. Com tradução simultânea de Felipe Carrelli, contou que o projeto é um programa que tenta levar a atividade de divulgação de astronomia a lugares remotos, onde geralmente esse tipo de iniciativa não chega. 

Com 12 anos de existência, o GalileoMobile é um grupo internacional voluntário. Começou na Alemanha e hoje tem integrantes de diferentes partes do mundo. González narrou um pouco dessa história e de dez projetos que alcançaram mais de 17 mil alunos e dois mil professores em 15 países. 

“É nosso trabalho não deixar ninguém para trás, tentando alcançar o máximo de pessoas”.

A proposta é compartilhar a astronomia com esse espírito de inclusão, sustentabilidade e intercâmbio cultural para que se possa criar um sentimento de unidade - uma sensação de interligação por estarmos todos sob o mesmo céu. Dentro desse último aspecto, reside uma das grandes preocupações do GalileoMobile: aprender conhecimentos ancestrais e também atuais sobre astronomia, apoiando, assim, a preservação dos diferentes saberes.

González contou que isso se dá através de diversas atividades e que elas são sempre organizadas em conjunto com a comunidade local. Assim, passam a entender quais são as necessidades reais e específicas de cada uma. Um exemplo é a prática com os alunos e o trabalho com os professores. Segundo ele, o prosseguimento dessas ações é fundamental e, por isso, estão tentando inovar na pandemia. Em 2020, fizeram uma atividade via Whatsapp. A palestrante seguinte, Sandra Benitez, também trouxe informações parecidas. Contou que tiveram que se adaptar às restrições impostas pelo coronavírus e as tecnologias foram fundamentais nesse processo. 

Uma questão também destacada por González foi a produção de conteúdos audiovisuais e a disponibilização de ferramentas para que essas comunidades possam promover os seus conhecimentos.

A última palestrante da mesa, Sandra Benitez, falou mais especificamente sobre o Projeto Amanar, que nasceu no GalileoMobile, mas tem incorporado outras instituições. Tais parceiros são grupos que trabalham com refugiados saarauis ou são relacionados à astronomia e astrofísica. 

Benitez afirmou que a astronomia pode tentar abordar alguns dos objetivos de desenvolvimento sustentável elaborados pelas Nações Unidas. E, dentro dessa perspectiva, o grupo decidiu trabalhar com populações que estão tradicionalmente excluídas da ciência, especificamente, no caso, os saarauis. Um dos objetivos do projeto é empoderá-los para que sejam líderes na preservação de seu conhecimento e da sua cultura. Ela também narrou o conflito do Saara Ocidental, os desafios enfrentados por lá atualmente e algumas ações do projeto envolvendo as crianças saarauis. 

O Projeto Amanar começou nas Ilhas Canárias, onde aproveitaram a existência de um programa chamado Vacaciones en Paz, em que muitas crianças saarauis participam para escapar de situações tensas do deserto no período do verão. Em julho de 2019, o projeto contribuiu com um dia de astronomia, com workshops e palestras divertidas. Em outubro, foram para o deserto e fizeram atividades nas escolas sobre diferentes temas relacionados à astronomia, atendendo muito ao que aqueles jovens já conheciam.

Ela relembrou o que González disse sobre as atividades com alunos e professores, as oficinas em que levam materiais para que possam ser usados com as crianças depois. Outra lembrança foi da ideia de, através da astronomia, promover um sentimento de cidadania global. Um dos desejos era de tentar despertar a sensação de que não estão abandonados, de que há pessoas pensando neles e tentando ajudar a resolver os problemas.

Por fim, levantou o tema sobre as mulheres saarauis nas ciências. Contou como trabalharam e trocaram experiências com elas, cujo papel fundamental na luta pelo território é reconhecido na comunidade. 

“Elas são altamente respeitadas, protegidas, têm seus direitos fundamentais reconhecidos e têm sido especialmente fortes no que tem a ver com a resistência, a ocupação do território deles (...). Nós estamos num centro de meninas que já completaram a educação secundária e querem se formar em alguma outra coisa, como por exemplo ciências audiovisuais, periodismo, técnicas antigas saarauis para fazer roupas. Tem toda uma variedade de conhecimentos e saberes que estão sendo estudados por essas meninas”.

Fechando o evento, os convidados responderam perguntas feitas pelo público e conversaram sobre o prosseguimento das atividades com os professores saarauis, sobre o acesso à internet, as desigualdades, sobre olhar para o céu durante a quarentena, o ensino da astronomia nas escolas e tantas outras questões envolvendo as ciências.